Thursday, March 17, 2005

 

40 anos do Concílio Vaticano II: Uma longa caminhada

Quando em 25 de Janeiro de 1959, na Basílica de S. Paulo em Roma, o Papa João XXIII disse que queria reunir um Concílio Ecuménico, não acreditámos. A notícia apanhou toda a gente de surpresa. E foi uma autêntica sur-presa, e agradável, das que Deus nos sabe proporcionar no seu infinito amor. Foram três anos de intensa pre-paração; a Igreja toda fervia, as ten-sões eram candentes e cada qual puxava para seu lado, quer os que queriam novidades, quer os que as receavam.
Eu estava então no fim de meu curso de liceu e filosofia. Quando em 11 de Outubro de1962 o Concílio teve início, já estava no meu curso de teologia. Acompanhámos o acontecimento com grande esperança. As dificul-dades apareceram logo: a máquina precisava de rodagem.
O primeiro assunto a ser debatido foi o da liturgia. Já chegava de liturgias numa língua incompreensível a quase todos, com o padre de costas viradas à assembleia. Já eram muitos os esforços que se faziam para conseguir que os cristãos pudessem não só “assistir” à Missa (que parecia ser só coisa do padre), mas sim “participar” dela; mas não era suficiente, era preciso revirar um bocado tudo. Foi uma autêntica revolução! Custou aplicar a reforma! Lembro-me das resistências de muitos padres e fiéis, idosos e não idosos; lembro-me da resistência de liturgistas e de artistas que diziam que não era possível deixar cair no esquecimento autênticos tesouros de tradição litúrgica e de arte musical, expressão da fé de inúmeras gerações de cristãos. Mas o caminho continuou. E continuou apesar de o Papa do Concílio ter morrido. Suce-deu-lhe Paulo VI, que fora meu Bispo, apaixonado pela Igreja. Imprimiu ao Concílio o rumo certo, colocando a Igreja diante dos homens como “Luz das nações” porque rosto de Cristo. Foi a descoberta fundamental do Concílio, o princípio que lhe deu a sua unidade profunda. A Igreja adquiriu mais esplendor ao ser compreendida já não como Hierarquia (os que mandam) e como fiéis (os que obe-decem), mas sim como Povo de Deus em que todos, com igual dignidade, partilham vida, fé, esperança, amor, missão, cada qual conforme o dom recebido e todos em harmonia e ser-vindo uns aos outros, sem distinção. E apareceu a “Igreja diante do mundo de hoje”, como sinal e sacramento de “alegria e esperança” que Deus quis dar ao homem, num dos documentos mais belos e ainda agora mais actuais do Concílio todo, onde o homem é enaltecido na luz de Deus, objecto do Seu amor como pessoa, como família, como comunidade, como povo, como nação.
O Concílio acabou em 8 de Dezembro de 1965 e eu era já padre. Em 68 cheguei à Guiné, imbuído dos ideais absorvidos ao longo daquele anos, com mais duas “ferramentas”: a Palavra de Deus assim como apresentada no documento do Concílio (“Dei Verbum”) que lhe diz respeito e o caminho da evangelização, magistralmente apre-sentado no decreto sobre a actividade missionária, “Ad Gentes”. A Guiné já tinha dado uns passos no sentido indicado pelo Concílio: por exemplo já a Missa era rezada em frente da assembleia e já não em Latim, mas sim em Português. Os cânticos eram ainda em Latim e Português. Já era alguma coisa, mas não adiantava muito. E começou-se a fazer cânticos em língua étnica, no meu caso em Felup. Já havia catecismoss em Kriol, algo em Balanta e em Felup. Intensificámos as traduções. Em Suzana, depois dos Baptizados de 1969, passámos a traduzir a liturgia: o povo devia participar, mas como podia se nem o Kriol entendia? O então Prefeito Apostólico, dada a situação política, não podia encorajar abertamente, mas deu contudo prova de grande abertura.
Posso testemunhar do apoio que sempre nos deu, em particular. Che-garam outros padres, que reforçaram o trabalho de traduções da Palavra de Deus e da Liturgia. Mas nem as traduções podiam ser suficientes sem uma renovação profunda da catequese: não adianta nada rezar e cantar na própria língua se não se assume “participar” no sentido profundo, teológico e pessoal, fazendo e sen-tindo-se parte de uma verdadeira “Assembleia litúrgica”, onde cada um assume seu papel e o cumpre da melhor maneira, sem se substituir a outros. Para tal era precisa uma cate-quese renovada sobre a Igreja.
Em Janeiro de 1972, como aplicação dos documento do Concílio, veio aquilo que num certo sentido sintetiza fé, catequese, ideia de Igreja como Povo de Deus e sua vivência: o Ritual do Baptismo dos Adultos. A Igreja colocava em nossas mãos um instrumento privilegiado de actuação pastoral e missionária. Foram precisos muitos anos, talvez demais; foi preciso que nascesse a Diocese em 1977 para que os agentes da pastoral, a começar pelos padres e irmãs que até então ainda vinham todos de fora, começassem a encontrar-se e a tentar caminhar juntos para que na Guiné também a Igreja se tornasse o Povo de Deus em que o Concílio falou. Começaram os cursos de formação para catequistas, a nível diocesano, de 1978 para diante, em vista de termos não só uma catequese renovada, mas também um núcleo de leigos formados, fermento do Povo de Deus. Começou-se a instituir os organismos que o Concílio indicou, o Conselho Presbiteral, ainda não o Pastoral, à espera que crescesse um laicado formado e activo.
Vieram os anos da pesquisa para conseguirmos ter umas linhas comuns de Pastoral, de 1984 a 1987. Foram anos em que o trabalho de pesquisa e reflexão ferveu nas missões todas e nos Sectores Pastorais, criados ao longo daqueles mesmos anos. O resto é história recente, que todos conhecemos: as Assembleias diocesanas, o Projecto Pastoral Diocesano e seu objectivos, a forma mais tipicamente africana e inculturada de entender a Igreja, Povo de Deus, como um conjunto de famílias, como a Família de Deus, que o Sínodo para a África nos ofereceu.
Acho que, quarenta anos depois do Concílio, devemos agradecer a Deus do fundo do nosso coração pelo trabalho que o Espírito Santo fez e está a fazer na Igreja de Deus, cá na Guiné também. Mas também devemos tomar consciência do que ainda falta actuar, das nossas hesitações, das nossas “preguiças”, do nosso medo de “perder” determinadas tradições ou supostos “tesouros”. Ainda falta aproximar a Palavra de Deus a todas as pessoas, alfabetizadas e não. Não é por acaso que os Padres do Sínodo para a África na sua Mensagem final, fizeram eco do Concílio e solicitaram que a Palavra de Deus seja traduzida em “todas” as línguas faladas no continente africano. E que dizer da Liturgia? Em que medida as nossas assembleias litúrgicas se podem tornar mais “assembleias” e mais “litúrgicas”, quer dizer, que façam existir num lugar concreto e definido a Igreja Corpo de Cristo que louva e agradece?
Estamos numa fase de reflexão sobre o caminho de preparação ao Baptismo, o tal Ritual do Baptismo dos Adultos. Quem nos solicitou foi o “Vade Mécum” para a renovação da catequese, um documento dos Bispos das Conferências Episcopais da África Ocidental (outro organismo nascido do Concílio): queremos tomar este caminho como no-lo indicou o Concílio? Solicita-nos a todos: Bispo, padres, irmãs, catequistas, padrinhos, comunidade inteira. O caminho está aberto, é só metermo-nos nele decididamente, para que a nossa Igreja, viva, presente através de seus membros em todos os cantos da Guiné, seja sinal vivo e compreensível, inculturado, de “alegria e de esperança” para todos os que nos rodeiam.
Padre Zé Fumagalli
 

25 anos da Fundação João Paulo II para o Sahel: Renovado o apelo em favor das populações da região

O Papa, através do Secretário de Estado do Vaticano, Cardeal Ângelo Sodano, enviou uma carta aos par-ticipantes da vigésima terceira sessão do Conselho de Administração da Fundação João Paulo II para o Sahel. O documento salienta que “o trabalho eficaz e intenso da Fundação permitiu financiar uma quantidade considerável de projectos, que obtiveram em todos os lugares uma aprovação e um apreço unânime pelos resultados obtidos”, prossegue a carta, desta-cando o encorajamento do Papa para que esta iniciativa de solidariedade prossiga, tornando as comunidades beneficiadas sempre mais respon-sáveis pelo seu desenvolvimento harmónico e integral. “Infelizmente, apesar do empenho dos Governos dos países africanos da região do Sahel e da comunidade internacional, a si-tuação dessas regiões continua preocupante.O documento salienta, em especial, o problema da água potável: “O Papa encoraja todos os esforços que favoreçam uma dis-tribuição mais justa dos recursos hídricos, acompanhada por políticas ambientais adequadas”.

Bispo de Bafatá faz balanço de encontro do Níger

De 14 a 20 de Fevereiro tive a graça de participar em Niamey ( Níger) na vigésima terceira sessão do Conselho de Administração da Fundação João Paulo II para o Sahel.
Durante a sessão o Conselho renovou o seu “bureau”, elegendo dom Jean-Pierre Bassenne, bispo de Kolda (Senegal) como presidente do Conselho de Administração e dom Michel Cartageguy, bispo de Niamey, como vice-presidente.
A reunião, que nos permitiu um encontro intenso com o povo e a Igreja do Níger, foi marcada pela celebração dos 25 anos do grande apelo que o Papa João Paulo II lançou no ano de 1980, em Ougadougou (Burkina Faso) em favor das populações do Sahel duramente afectadas pela seca. Para esta reunião de Niamey, o Papa enviou uma outra mensagem (ver notícia acima) renovando o apelo feito há 25 anos.
Nós, bispos administradores da Fundação, celebrando o Jubileu daquele grande apelo histórico e animados pelas palavras do Santo Padre na mensagem acima referida, colhemos a ocasião para renovar o nosso empenho na luta contra a desertificação, na busca de melhorias das condições de vida e da segurança alimentar a fim de aliviar o sofrimento das populações dos nossos países.
Rezemos pela Igreja do Níger que, em sua condição de minoria numérica, assumiu para si um grande empenho: “Todos responsáveis e missionários numa Igreja família que testemunha o Evangelho na realidade do Níger”.
Dom Pedro Zilli
 

Amnistia em debate: Bispo de Bissau tornou pública a sua opinião

Resumo da intervenção do bispo de Bissau no Atelier da Sociedade Civil sobre o Conceito de Amnistia e a sua Implicação no Processo de Justiça e Reconciliação Nacional, que decorreu na Faculdade de Direito de Bissau durante os dias 4 e 5 de Março.

Qual é o desejo profundo que emerge quando numa sociedade se começa a falar de amnistia? A mim parece-me que por detrás da amnistia se pode captar um desejo profundo (...) de viver em paz. Uma paz verdadeira e duradoura que não seja uma mera fuga do conflito ou da guerra, mas uma opção clara e consciente do bem que a paz é e significa. Ora bem, para chegar a esta paz que caminhos é preciso trilhar, que opções é preciso fazer?
Tenho para mim que a questão não é simples e que pode ser perigoso abor-dá-la de maneira parcial. É necessário estarmos conscientes da amplitude e da complexidade do processo para não entrarmos em becos sem saída ou não nos determos a meio de um percurso.

Vários aspectos ou dimensões da reconciliação

Aspecto sócio-económico
Pensemos numa pessoa que foi humilhada, destruída, rejeitada. O que fazer para lhe voltar a conferir a dignidade, a honradez a que tem direito? É importante acolhê-la, integrá-la novamente na sociedade a que pertence. Mas não haverá nada a fazer relativamente aos prejuízos que esta pessoa sofreu, juntamente com a sua família? Pode uma reconciliação verdadeira e profunda passar por cima destes aspectos?(...)
Dimensão político-educativa
O que fazer para que o guineense tenha uma consciência recta e decida optar pelos bens que dignificam a família e a sociedade?(…)
Nós acreditamos que, mesmo no meio de contradições e ambiguidades, o coração do homem e da mulher guineenses é habitado por valores humanos, sociais e religiosos que o levam a tornar-se alérgico à corrupção e à mentira, as quais estão a corroer a nossa sociedade. O nosso apelo é que nos deixemos guiar por aquilo que é o melhor de cada um de nós e assim podermos garantir um futuro a nós mesmos e às novas gerações.
Dimensão religiosa
O homem e a mulher guineenses são profundamente religiosos; podemos afirmar que esta dimensão religiosa é um denominador comum extremamen-te positivo, que nos pode facilitar a busca de entendimentos e de consensos.(...)
Não são apenas os militares que precisam de se reconciliar; é toda a sociedade que precisa de se empenhar num caminho de purificação.(...)
Sugerimos, pois, a criação de uma comissão que possa envolver toda a sociedade e que ajude a traçar percursos de reconciliação indispensá-veis para superar os traumas do passado.
 

30 anos dos Grupos de Jovens: “Firkidjas” da Igreja guineense

Januário Indi foi um dos elementos que fundadaram os Grupo de Jovens católicos da Guiné-Bissau, movimento surgido em 1974. Hoje é casado, a sua fé amadureceu e integra um outro movimento - os Grupos de Casais. Passados 30 anos, ao olhar para trás, Januário recorda os tempos da “militância católica”. Estávamos em 1974 e a independência tinha acabado de chegar, juntamente com os ideais socialistas, a uma sociedade que se queria “marxista-leninista”.
Januário Indi lembra que naquela altura “se algum jovem quisesse entrar numa organização juvenil tinha que aderir à Juventude Amílcar Cabral (JAC) ou à Organização dos Pionieros Abel Djassi (OPAD), não podendo integrar nehuma outra. Mas havia jovens que não se reviam naquelas organizações. Foi com esse objectivo que surgiram os Grupos de Jovens.”
Apesar de alguns problemas pontuais, este movimento sempre foi tolerado pelo partido no poder. Há relatos de confrontos físicos entre os membros da JAC e dos Grupos de Jovens, mas as reuniões decorreram sempre de portas abertas, sem que fosse necessário ocultar as suas acções.
No que diz respeito ao funcionamento dos Grupos, Januário Indi salienta a forte atenção dada à formação dos seus elementos. “A formação era muito importante no entender dos responsáveis pelos Grupos. E essa formação incluía diversos domínios, entre eles o político. “Para uma pessoa poder reagir melhor ao marxismo tinha que conhecer, em primeiro, a doutrina católica e depois saber o que era o marxismo.”
Em jeito de balanço sobre o tempo de existência dos Grupos de Jovens, este antigo responsável afirma que não podia ser mais positivo. E salienta duas razões: “Em primeiro lugar a tentativa de marxização da sociedade guineense não foi alcançada, visto o povo permanecer crente e o ateísmo propalado ser um fenómeno extrínseco à sua cultura tradicional; em segundo, porque dos Grupos de Jovens saíram os actuais padres e irmãs guineenses, vários casais, que integram outros movimentos, e leigos. Estas pessoas são as ‘firkidjas’ da Igreja guineense”.
Jorge Neto
 

Semana Cultural: Paz e reconciliação no centro do debate

A semana cultural 2005, realizada de 23 a 30 de Janeiro e que teve como tema central a Paz e a Reconciliação, articulou-se em três vertentes – celebrativa, formativa e cultural. As celebrações deste ano procuraram envolver não apenas os cristãos, mas o maior número possível de guineenses. De facto, o seu objectivo é mesmo este: entrar em diálogo com a sociedade, já que a Igreja tem consciência de ser enviada ao mundo para lhe oferecer o que tem de melhor – Cristo e o seu Evangelho (Boa Nova) e para acolher do mesmo mundo tudo aquilo que não contradiz o mesmo Evangelho, antes o ajuda a compreendê-lo e a vivê-lo mais profundamente, encarnando-o em cada cultura.
Para animar os momentos formativos tivemos entre nós o guineense Filomeno Lopes (uma personalidade rica e facetada, já que é douturado em Filosofia, licenciado em Teologia, redactor da Rádio Vaticana e artista). Na palestra do dia 24, dirigida de modo especial aos políticos, à sociedade civil, ONG, corpo diplomático e chefes religiosos, Filomeno Lopes procurou “aventurar-se num discurso teológico sobre a Paz”. O filósofo e teólogo falou de Jesus que chora vendo a ruína de Jerusalém e disse que este “chorar de Jesus não é qualquer coisa que diz apenas respeito à sua psicologia, mas é algo que abre para o mistério de Deus”. E perguntou: “O que significa para cada um de nós a cidade de Bissau? O que significa o ‘templo’ da Guiné-Bissau, simbolizado precisamente na sua capital?”. “Se tu também tivesses sabido, neste dia, como achar a paz!... Mas infelizmente isto ficou oculto aos teus olhos!” (Lc.19, 42). Filomeno Lopes salientou também nas suas intervenções a “íntima relação entre a Boa nova da paz e a aceitação da visita de Deus” e lançou algumas questões: “Qual é hoje a fé do guineense? Qual é hoje a integridade do guineense? Em que estado se encontra a nossa consciência? Há que iniciar um caminhar ético em direcção à paz. Há que apostar essencialmente na construção do homem e da mulher guineense. Há que formar sobretudo o seu coração.”
A semana iniciou e encerrou com um espectáculo cultural – o primeiro de estilo mais moderno e o segundo mais tradicional. Muitos artistas e grupos de “manjoandade” aderiram, abrilhantando os concertos realizados.
Ponto de partida para o debate e a reflexão não foram apenas as conferências mas também a projecção de um videoclip, sempre de Filomeno Lopes, que visou o público juvenil em geral e também os militares. O ponto alto da Semana Cultural foi a celebração da Eucaristia, na catedral.
Lúcia Correia
 

Vida Consagrada: “Caminho Aberto, Sinal de Esperança!”

Realizou-se em N’Dame, entre 1 e 2 de Fevereiro, a Assembleia da Vida Consa-grada, que reuniu os Institutos e Congre-gações presentes na Guiné-Bissau. O encontro desafiou todos os religiosos a trabalhar no país a serem “sinal de espe-rança”.
Os temas específicos tratados nesta Assembleia foram: “Visão histórica e perspectivas actuais”, desenvolvido pelo padre João Vicente Dias, e “Abordagem bíblico-teológica na experiência de vida consagrada na Guiné-Bissau”, a cargo da irmã Maria Sílvia Gomes.
No final foram recolhidas algumas consi-derações/interrogações/desafios para uma presença cada vez mais evangélica e mais dinâmica da vida consagrada, chamada a abrir e apontar novos cami-nhos para todo o povo de Deus. Caminhos Africanos deixa em resumo alguns dos pontos colocados em destaque pelos participantes na Assembleia da Vida Consagrada.
*A Vida Consagrada na Guiné-Bissau, na sua primeira fase, foi marcada pela evan-gelização directa, pela itinerância, pela ousadia, pela coragem missionária.
*Com a vinda das várias Congregações e Institutos, passou-se a trabalhar, além da “evangelização directa”, nos serviços da educação, da saúde, entre outros. (A grande lacuna foi a “falta de inculturação” que também se notou na ausência de vocações locais).
*A presença missionária dos Consagra-dos e Consagradas tem sido um sinal da vida de Cristo no anúncio e no testemunho; entretanto o convite à conversão, ousadia, solidariedade e esperança são uma constante em nossas vidas.
*A nossa Igreja tem um rosto, uma iden-tidade. É preciso dar corpo a este rosto, proclamado com raízes profundas e hori-zontes abertos, na esperança cristã. Anunciar Cristo vida e salvação da his-tória e de cada ser humano.
*Estamos no Ano Eucarístico. É Cristo que nos amou, nos elegeu, nos chamou, nos consagrou. Qual é o tempo que estou com Ele para que seja Ele que em mim se manifesta aos irmãos?
*Como mudar a mentalidade do ser “patin” para um relacionamento mais humano, solidário e recíproco?
Como mudar a imagem do poderio material e assistencial para uma imagem da vida consagrada mais modesta e espiritual?
*O que fazer para que haja mais diálogo e comprometimento conjunto no caminho da formação e no ser Igreja, família de Deus?
*O que fazer e como agir diante da vio-lência que assola as missões, as famílias, os que trabalham em vista do bem popular?
*Com Maria, “Mulher eucarística”, renova-mos o nosso sim e na disponibilidade di-zemos: “Faça-se em mim conforme a Tua palavra”.
Comissão Interdiocesana da Vida Consagrada

Monday, March 14, 2005

 

É A PÁSCOA DO SENHOR!

“Eu atravessarei a terra do Egipto naquela noite e ferirei todos os pri-mogénitos na terra do Egipto, desde os homens até aos animais e contra todos os deuses do Egipto farei justiça, EU, o SENHOR… Aquele dia será para vós um memorial e vós festejá-lo-eis como uma festa em honra do SENHOR. Ao longo das vossas gerações, a deveis festejar como uma lei perpetua…” (Êxodo, 12,12-14)
Aproximam-se os dias da Semana Santa. São os dias que nos convidam a en-trar no coração de todo o Mistério da redenção. Os dias que dão sentido a todos os outros dias do Ano Litúrgico.
No centro das celebrações da Semana Santa está o tríduo pascal que é o centro não só da Páscoa, mas de toda a vida da igreja. Na liturgia ocupa o primeiro lugar, é o cume de todo o acontecimento da redenção.
O tríduo pascal começa na missa vespertina da quinta-feira santa, chamada “Ceia do Senhor”, tem o seu centro na Vigília pascal do Sábado Santo e encerra com a missa vespertina do Domingo de Páscoa.
O tríduo pascal não é um tríduo que nos prepara para o Domingo da Páscoa, mas um tríduo celebrativo de todo o mistério pascal de Cristo.
O Senhor é de facto o grande protagonista destes dias. É ele que passa no “Egipto” da nossa vida e nos liberta das correntes da escravidão em que estamos ainda amarrados. É o Egipto dos faraós, do grande poder, o Egipto que explora as pessoas humildes para a realização dos próprios sonhos de grandeza. É o Senhor que passa e que nos conduz rumo à terra prometida, nos conduz diante de um sepulcro que está vazio porque Cristo é ressuscitado, mas este caminho passa antes de tudo através um qespaço: o cenáculo, onde o amor se torna alimento de co-munhão, onde a vida se torna pão, este caminho passa pelo monte cal-vário, ao pé da Cruz onde o sangue de Cristo é derramado “para nós e para todos para a remis-são dos pecados”. É Ele que nos liberta! O que nos é pedido é “festejar este momento como uma festa em honra do Senhor”. O “fazei isto em memória de Mim”, em primeiro lugar é reconhecer e aceitar esta libertação na minha vida e de consequência, libertado, tornar-me solidário com todos os outros homens neste caminho de libertação.
Se realiza assim também para nós a promessa que Deus fez para Abraão: “Eu faço de ti uma bênção! Por tua causa serão abençoados todos os povos da terra!
Deus convida-nos nesta Páscoa a ser fonte de bênção para o nosso povo da Guiné e para todos os povos da terra!Feliz Páscoa!
Padre Marco Pifferi

Tuesday, January 25, 2005

 

LEPROSARIA DE CUMURA - SEGUIR O MANDATO DOS FUNDADORES ACUDINDO NOVAS DOENÇAS

Senhor Filipe trabalhou desde 1956 na missão católica de Cumura. Hoje, por ironia do destino, está internado no hospital da missão com tuberculose.A cara cansada e o corpo magro denunciam a doença que lhe retira a força que ele nunca negou ao trabalho.
Quando lhe perguntamos por D. Settimio, os olhos fixam o vazio. Senhor Filipe não tem força para falar. Respira fundo e repete a pergunta: "D. Settimmio?… D. Settimio?…". Com mais uma inspiração, senhor Filipe ganha fôlego e consegue finalmente acabar a frase: "Era um santo."
Foi em Cumura que D. Settimio passou parte da sua vida de missionário. O padre Franciscano chegou à Guiné-Bissau em 1955 e viveu ali durante 22 anos. Só em 1977, altura em que foi nomeado primeiro bispo de Bissau por Paulo VI, D. Settmio Ferrazzetta se mudou para a capital.
Não admira por isso que em Cumura D. Settimio seja lembrado com enorme carinho.
Os missionários que hoje ali trabalham procuram manter-se fiéis ao espírito inicial do fundador da instituição: servir os leprosos. Mas os sinais dos tempos e o aparecimento de novas doenças fizeram com que o hospital abrisse as portas ao tratamento de novas patologias.
"A lepra é a nossa prioridade", salienta a irmã Valéria Amato, acrescentando no entanto que, "o hospital teve que se adaptar às "lepras modernas". As lepras modernas, de que fala esta responsável, são a Sida e a tuberculose.
Hoje, o hospital tem cerca de 50 doentes internados. Desses, 30 são hansenianos e os restantes seropositivos ou tuberculosos.
"Abrir as portas do hospital a estes doentes é uma forma de dar continuidade ao mandato que nos foi confiado pelos fundadores desta casa, entre os quais está D. Settimio", garante a irmã Valéria, sus-tentando que "a Sida hoje, não é menos dramática que a lepra foi há 50 anos.
Jorge Neto

 

4 ª Missão Conjunta - PARCEIROS PROMETERAM AJUDAR GUINÉ

Reforçar o espírito de solidariedade entre o membros e capacitar a Caritas Gui-neense na busca de soluções para os problemas que afectam o país foi o objectivo da 4ª Missão conjunta dos parceiros da Caritas da Guiné. O encon-tro decorreu entre 8 e 12 de Novembro de 2004 e reuniu à mesma mesa, para além dos representantes da estrutura guineense, os delegados das Cari-tas Alemã, Italiana, Norte-Americana e Portuguesa.
Ao longo da semana de trabalho os parcei-ros puderam observar as melhorias na organização interna da Cáritas da Guiné-Bissau. De entre estas melhorias a Missão Conjunta destacou, entre outros, os avanços significativos na execução e elaboração de projectos, a elaboração de um plano estratégico para os próximos três anos e a identificação dos eixos estratégicos principais: identidade, emergência, acesso à saúde e promoção de rendimento.
Conjuntamente com as melhorias e os esforços palpáveis demonstrados, os delegados constataram lacunas pontuais na elaboração do ciclo de projectos, em particular a falta dos indicadores qualita-tivos e quantitativos.
O memorando da Missão Conjunta, divulgado no final do encontro, refere que os parceiros concordaram em sensibili-zar os respectivos governos e outras en-tidades para uma maior compreensão da situação da Guiné-Bissau e das acções da Caritas.
Ao longo dos cinco dias de trabalho os de-legados dos países partici-pantes tiveram oportunidade de se encontrar com o delega-do da Comis-são Europeia, o presidente da república e o primeiro-ministro. A ocasião serviu para os participantes demons-trarem a solidariedade da Igreja universal para com o povo da Guiné-Bissau neste momento particular da sua história.
A 5ª Missão Conjunta decorrerá de 7 a 11 de Novembro de 2005.

 

D. SETTIMIO FERRAZZETTA - NO CORAÇÃO DOS GUINEENSES

Há quem o considere figura de proa da história da Guiné-Bissau. Mas D. Settimio foi acima de tudo um homem simples e disponível. Para os outros e para a terra que amou e serviu.
Caminhos Africanos foi em busca das memórias que alguns católicos guardam do "homi garandi" da nossa Igreja. Leia nesta edição os depoimentos do Bispo de Bissau, de dois leigos católicos, de um missionário, e de um jovem.


É PRECISO CONSERVAR O LEGADO DE D. SETTIMIO
D. José Câmnate na Bissign

Muita tinta já correu sobre a vida e obra de D. Settimio, de saudosa memória. E cer-tamente vai continuar a correr, pois a sua acção pastoral ultrapassou as fronteiras desta Igreja local e deste país. Assim como as obras de arte e as pedras precio-sas adquirem mais valor com o passar dos anos, assim também o tempo se encarre-gará de ir revelando aos poucos as várias facetas da rica personalidade deste «pastor incansável».
A seis anos da sua morte e no perdurar do clima de instabilidade política, de fragilidade económica e estrutural e de fracturas sociais, apraz-me sublinhar uma das atitudes que caracterizaram D. Setti-mio: a atenção particular a cada pessoa. Tanto em tempos de paz como em tempos de crise soube estabelecer boas relações com pessoas de todas as camadas so-ciais. Nestes contactos procurava, por um lado, perceber as interpelações e os sinais dos tempos, e por outro encontrava moti-vações para «permanecer na linha da frente». Radicado na certeza da sua voca-ção e missão percebia a religiosidade ge-nuína deste povo como elo de ligação e como fonte que alimentava as esperanças diante da dureza e dos dramas da vida.
Que saibamos conservar este legado de abertura, de acolhimento e de comunhão espiritual, tornando-nos promotores do diálogo social e inter-religioso susceptível de criar uma sociedade mais harmoniosa, justa e pacífica.

HOMEM SIMPLES E DISPONÍVEL
Maria Brígida, professora e sindicalista
Evocar a figura de D. Settimio e pensar em tudo aquilo que nos deixou não é fácil: são tantos os aspectos que me vêm à me-mória! Mas tentarei referir, de maneira esquemática, alguns desses aspectos.
Em primeiro lugar a sua forma de ser, a sua simplicidade e a sua disponibilidade a todos, independente da sua condição social ou religiosa.
Depois a sua grande preocupação e o seu trabalho com os jovens, favorecendo e estimulando a criação de quadros guine-enses que deveriam trabalhar para o desenvolvimento do país.
E como não pensar na sua grande atenção às famílias? Uma atenção que visava as famílias mais desfavorecidas, tentando caminhos de promoção social, mas também uma atenção evangelizadora. Ele acreditava profundamente na força e na importância da família para transmitir o Evangelho e para que este se radicasse no chão da Guiné.
Lembrar D. Settimio é também pensar na consolidação da nossa Igreja Diocesana, na atenção que prestou à formação dos Seminaristas e das Irmãs guineenses.
Um último aspecto que gostaria de sublinhar era a sua grande atenção e delicadeza por quantos praticavam a religião tradicional e também pelos muçulmanos. Captava-se que não era uma questão estratégica mas qualquer coisa de mais profundo que nascia do seu coração bom, do seu respeito por cada pessoa e pelo reconhecimento da genuína religiosidade que habitava em cada uma.

UM HOMEM QUE NUNCA ESQUECEU OS LEIGOS E O SEU PAPEL NA IGREJA
Apolinário Mendes de Carvalho, diplomata
Falar do legado de D. Settimio é um exercício algo difícil, senão complicado, sobretudo pela vastidão e qualidade da obra deixada. A capacidade de ser e manter-se Homem do seu tempo, demonstrando espírito e energia jovem do viver, criar e construir, coabitando com a sabedoria de uma vida emprestada a Deus e ao próximo, torna por outro lado este exercício reconfortante. Certamente que não escaparam à análise atenta de quem se propôs debruçar sobre o legado do "Homi Garandi", aspectos que se prendem com os desafios de edificação da Diocese de Bissau, da promoção da Paz e da reconciliação entre os guineenses, da promoção humana e social do homem guineense, que vai na linha do que se designa hoje por luta contra a pobreza, e da sua capacidade pessoal de dar a si mesmo aos outros.
Por isso, gostaria de deixar aqui apenas algumas linhas sobre a sua contribuição para a consciência do papel do laicado e para a formação e sensibilização de leigos para a assunção adequada do espaço natural que lhes é reservado na Igreja guineense.
Convencido que o processo de edificação e enraizamento da Igreja de Cristo na Guiné-Bissau não podia descurar os leigos, D. Settimio, mesmo contrariando os pontos de vista de alguns missionários, deu desde logo uma atenção particular à questão da formação dos leigos cristãos em várias áreas técnicas do saber. Numa altura em que tudo estava por fazer e/ou criar, nomeadamente a formação de Padres e Irmãs, construção de infra-estruturas essenciais, alargamento do campo de acção da pastoral, o Bispo Settimio soube encontrar disponibili-dade, em tempo e meios, para responder a uma preocupação algo futurista de abrir as portas de instituições de formação de vários níveis, incluindo superior, a muitos jovens católicos, e não só. O tempo, mais uma vez, deu razão ao "velho" e clarividente Bispo, demonstrando que os desafios da Igreja de Cristo na Guiné-Bissau, não podem pôr de lado a problemática da promoção humana e social, ou seja formar agentes do desenvolvimento e de interven-ção qualificada nas actividades da pastoral, cada vez mais alargadas e complexas.
Um dos aspectos que sobremaneira ilustra a atitude de D. Settimio para com o papel dos Leigos, está na seguinte frase proferi-da numa das reuniões preparatórias da criação da AQUALEICA - espaço de reflexão e de enquadramento de quadros católicos por ele promovido e incen-tivado - "Quim cu ca mati nundé cu bianda na cucinhado, qui ki dado el qui ta cume". Essa afirmação veio a pro-pósito da necessidade da participação de leigos na vida política. No seu enten-dimento os cristãos não podem virar costas à política, sendo ela um instru-mento de organização da sociedade, de decisão sobre as nossas vidas. A atitude é apenas saber estar na política, ou seja, fazer política servindo o próximo, le-vando à política os valores do Evan-gelho, da Doutrina Social da Igreja.
Portanto, a visão do saudoso Bispo continua actual na perspectiva do papel do leigo na Igreja e na Sociedade.

FALTA COMPLETAR A SUA OBRA
Padre Dionísio Ferraro
A morte de D. Settimio não fez esquecer a figura do bom pastor que procurou es-tar perto do seu rebanho para o confir-mar na dignidade dos filhos de Deus.
Perto dos doentes, de uma maneira especial dos de Cumura, mas também os de Bissau, os de Buruntuma… Perto dos estudantes e perto dos lavradores, para os ajudar a descobrir um futuro de esperança na verdade.
No entanto, nos últimos meses de vida, quando estava refugiado na casa dos padres portugueses (Agosto - Setembro de 98), sentado nos degraus da garagem, reconhecia uma falha: a liderança sócio-política e militar ficou fora, a Igreja não conseguiu um diálogo educativo com os dirigentes desta república, era bom tentar alguma coisa.
Os valores de uma república, a unidade, a reconciliação, a honestidade, a presença no trabalho, o espírito de serviço… algu-ma coisa foi feita, mas falta ainda muito.
Celebrar os seis anos da morte de D. Set-timio significa, portanto, completar uma obra grande que ele mesmo mostrou como necessária e urgente: preparar os futuros dirigentes desta república, mostrar ao povo os mais honestos e os mais com-petentes.

MELHOR QUE TODAS AS CONSTRUÇÕES É CONSTRUIR O CORAÇÃO DO HOMEM
Caló Fernandes
Sofrimento e feridas actualizam os ensinamentos de Dom Settimio
No meio de tantas brincadeiras que carac-terizam a juventude de hoje, sonhos e lá-grimas, teimosias e coragem com que os jovens vivem, há muito sofrimento e feridas. A cada passo da jornada, o jovem é obrigado a fazer escolhas porque o tempo passa rápido e a juventude depressa. Antes que as células do jovem comecem a morrer é necessário que este encontre o caminho. Em cada queda o jovem questiona se a vida que leva o ensina a descobrir a verdade que é a vida.
Perdido no meio de voltas e voltas para justificar a queda, o sofrimento e a ferida, surge a frase daquele que para mim é a figura do século, no século e para o sé-culo: Dom Settimio Ferrazzetta. Em cada situação difícil e de sofrimento, os seus ensinamentos são actualizados: "Melhor que todas as construções é construir o coração do Homem".
Na verdade, os jovens e toda a sociedade reconhecem que é inútil encarcerar-se em construções extraordinárias e luxuosas sem primeiro construir o coração de cada homem. Hoje, cada jovem sente-se responsável nesta luta de fazer o mundo conhecer o caminho traçado pelo nosso bispo e herói.

 

PEQUENAS COMUNIDADES EM DESTAQUE

O Bispo de Bissau publicou em Novembro uma carta-circular onde delineou as prioridades para o ano pastoral 2004/05. A carta, intitulada “Comunidades Cristãs no ano da Eucaristia”, divide-se em 4 partes: A primeira parte é dedicada à “Identidade da Comunidade Cristã”, a segunda aborda as “Pequenas Comunidades Cristãs”, na terceira é referido o “Ano Eucarístico” e por fim D. José Camnate faz o balanço do Sínodo Africano, dez anos passados sobre este acontecimento.
Na linha do que fizemos no primeiro número, Caminhos Africanos continua nesta edição a destacar a importância das pequenas comunidades cristãs, “experimentadas como o ‘habitat’ mais próprio para a identificação profunda com Jesus Cristo, através de uma fé assumida, personalizada, testemunhal, capaz de se pôr ao serviço do Reino”. Destacamos hoje parte do ponto II da referida carta, onde se fundamenta a criação das pequenas comunidades cristãs e a identidade das mesmas.
«Nesta parte tentaremos fundamentar a razão pela qual foram criadas as Pequenas Comunidades Cristãs. Podemos começar com a frase de Jesus: “amai-vos uns aos outros como Eu vos amei!” (Jo.13,34-35). Somente quando as pessoas se preocuparem umas com as outras, souberem perdoar, e se ajudarem umas às outras, então sim, a vida, o mundo será diferente e a Paz será uma realidade! Mas alguém tem que começar! Eu sou cristão, portanto devo começar com aquele que vive perto de minha casa. Como cristão, eu recebi a fé e a esperança em Cristo: Por isso, cada um de nós deve começar a formar comunidade com os seus vizinhos.
Outra razão pela qual devemos formar as Pequenas Comunidades Cristãs, está na própria maneira de viver de Deus: “Que eles sejam um, como Eu e o Pai somos Um” (Jo.17,22). Deus não é solitário! Vive em Comunidade! Deus é uma Comunidade de três Pessoas. Essas três Pessoas não vivem isoladas uma das outras, mas vivem uma vida comunitária íntima e perfeita, porque têm uma mesma maneira de “sentir” e “pensar”.
Nas Pequenas Comunidades Cristãs, as pessoas são ajudadas a encontrar na Palavra de Deus motivações para uma vida melhor! O Evangelho tem uma força muito grande. Provoca mudanças. Exige conversão e vida nova. Mas, para que isso aconteça, é preciso que a Palavra de Deus seja partilhada em cada semana, iluminando a realidade da comunidade e apontando o melhor caminho a seguir (catequese, visita aos doentes, ajuda aos mais pobres, escolha de um membro para o Conselho Paroquial; e, análise da situação onde se vive, fazer projectos de desenvolvimento ou outro trabalho para melhorar a condição de vida das pessoas).
É verdade que há paróquias onde os pequenos grupos já fazem a partilha da Palavra cada semana e cada um escolhe um propósito para viver, mas é individual, não fazem nada juntos. Onde acontecem estas coisas, é melhor chamar “grupos bíblicos” ou “grupos de oração bíblica”, porque o nome Pequenas Comunidades Cristãs é usado para as comunidades que querem fazer a Partilha da palavra tomando compromissos juntos. Um outro aspecto relevante destas comunidades é o facto de serem formadas a partir das famílias cristãs que moram mais próximas e que vão acolhendo outras pessoas. Nelas, portanto, encontra-se gente de todas as idades e nelas se desenrola todo o círculo da vida, com as suas diferentes etapas e exigências. (...)
Para o êxito das Pequenas Comunidades Cristãs é necessário que o Padre, a Irmã dêem às comunidades coragem, visitando-as periodicamente; formem os animadores, fazendo com eles encontros regulares, preparando-os para a partilha da Palavra de Deus.
“Embora sendo muitos, formamos um só corpo em Cristo” (Rom.12,5). Esta é uma verdade muito bonita que vivemos na missa ou nos encontros cristãos, como também espiritualmente, mas não é suficiente! Com os meus vizinhos devo viver de maneira tal que as pessoas percebam que somos membros de um corpo só! Por isso, sejamos corajosos e formemos as Pequenas Comunidades Cristãs com os vizinhos, para que possamos verdadeiramente formar o Corpo de Cristo».

 

Missionário Oblatos há um ano em Farim

O primeiro ano dos Missionários Oblatos de Maria Imaculada na Guiné-Bissau foi dedicado a conhecer a realidade local. Dozes meses depois de terem chegado a Farim, os dois padres e um irmão presentes na missão consideram que “este foi um tempo para se inteirarem das realidades pastoral e apostólica”, principalmente, mas também da envolvência “social, étnica e política do país e da região” onde se encontram em missão.

Em jeito de balanço sobre um ano de missão, o superior da comunidade, padre Carlos, relembra o apoio de todos os que com eles trabalharam e trabalham, em especial do padre Giovanni Musi, antigo pároco de Farim e actual chanceler diocesano, e das duas congregações de irmãs, as de São José de Cluny em Farim e as Oblatas do Coração de Jesus em Bigene.
Conscientes das dificuldades que os esperam, os missionários afirmam “confiar na ajuda de Deus, dos padres e das irmãs que com eles trabalham na diocese de Bissau.
Os três oblatos presentes em Farim são o padre Carlos, o padre Celso e o Frei Bernardo, que se encontra na Guiné-Bissau a preparar-se para o sacerdócio.


Monday, January 24, 2005

 

PIME : Cinquenta anos de presença missionária nos Bijagós

“Convidado por vossa Excelência Reverendíssima, em 22 do passado Junho, a transferir provisoriamente a minha actuação missionária de Bambadinca para as ilhas dos Bijagós, cheguei a Bubaque em 30 de Junho. Assim, esta Missão, constituída juridicamente em 1942, ficava a ter padre residente, embora a título provisório, no ano centenário da Padroeira e titular da mesma Missão...”

Foi com estas palavras que o padre Arturo Biasutti no seu primeiro relatório enviado em 2 de Janeiro de 1955 ao prefeito Apostólico, relata o começo da presença dos padres do P.I.M.E. (Pontifício Instituto Missionário Estere) no arquipélago dos Bijagós. Uma presença que dura há cinquenta anos.
Os padres do P.I.M.E., presentes na Guiné Bissau desde 1947, quiseram este ano lembrar de maneira especial o “Jubileu de Ouro” da missão de Bubaque como uma ocasião preciosa para renovarem o entusiasmo missionário que animou os primeiros padres e reafirmar mais uma vez toda a sua disponibilidade em servir esta Igreja na sua caminhada como família de Deus.
Nestes cinquenta anos foram treze os padres do P.I.M.E. que passaram por aquela missão. Recordem-se, além do padre Arturo Biasutti, o padre Giovanni Formenti, o padre Salvatore Angelone, o irmão Vincenzo Benassi - que ainda hoje vive com os seus 95 anos, cheio de vigor e com muita saudade da missão - o padre Benedetto Borgato;o padre Roberto Spaggiari, o padre Mauro Maculan; e ainda os padres Luigi Scantamburlo, Giovanni Musi, Antonio Clari e Marco Pifferi que permanecem na Guiné-Bissau, empenhados em outros serviços. Ao lado dos padres do P.I.M.E. não podemos esquecer as irmãs do Santo Nome de Deus - e de maneira especial a irmã Angela Polisel que faleceu em Bubaque no 1975 e que está sepultada no pequeno cemitério da comunidade de Bubaque - as irmas Escolápias e as da Consolata que actualmente estão prestando o serviço do testemunho do Evangelho no arquipélago.
Os começos de uma caminhada não são simples, embora sempre cheios de entusiasmo. As dificuldade e os desafios que os primeiros padres do P.I.M.E. tiveram de enfrentar foram muitas, embora nunca tenha faltado o entusiasmo do evangelho e da evangelização.
Mas se os começos foram difíceis, os frutos estão debaixo dos nossos olhos: a pequena comunidade de Bubaque ofereceu à Igreja de Guiné três padres diocesanos (padre Bernardo Gomes, padre Jorge Soares e padre António Imbombo), uma irmã da Congregação das Irmãs Hospitaleiras (ir. Eugénia) , uma da Congregação das Clarissas Franciscanas (ir. Celestina) e uma da Congregação das Irmãs Escolápias (ir. Naida).
Outros jovens e raparigas encontram-se actualmente no seminário diocesano e nas casas de formação das diversas congregações presentes na Guiné. A semente lançada na terra produz, mas o fruto mais bonito são as comunidades que um pouco em todo o lado florescem como testemunho de uma história de salvação que continua a ser escrita pelas mãos de Deus através cada um de nós.

Padre Marco Pifferi
Superior regional PIME na Guiné Bissau

Friday, January 14, 2005

 

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